Porque razão parece haver menos entusiastas das observações astronómicas?

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perguntou Nov 11, 2014 em Observações Astronómicas por Guilherme de Almeida Super-Nova (24,440 pontos)
editado Out 22, 2016 por Guilherme de Almeida

Caríssimos utilizadores do Astronomia Q&A,

Parece inequívoco que, em Portugal, após uma "época de ouro" no entusiasmo amador por Astronomia e por querer observar (por si mesmo) os astros, se atingiu um pico por volta de 1995-2000. Depois disso, os entusiasmos foram arrefecendo. São agora uma pálida sombra do que eram.

Na verdade, desde 2000, a compra de telescópios, de acessórios e de livros que mostram como se observa e como se utilizam telescópios decaiu enormemente. Algumas lojas deste equipamento foram forçadas a fechar. E as que subsistem entre nós, vendem pouco e cada vez menos. Quando se fazem encontros de interessados na observação do céu, a assistência, que era de centenas, é agora, com sorte, de 20 ou 30 pessoas.

Podem, alguns, dizer que "é da crise". Mas a mesma crise não se manifesta (ou pelo menos não se espelha) na compra e procura de produtos e serviços bem mais dispendiosos e nem por isso abandonados: jogos de futebol regularmente assistidos ao vivo (bilhetes dispendiosos), Smartphones, Iphones e IPad's (sempre da última geração), restaurantes regularmente frequentados e sempre cheios, etc., etc.  Não se dá 25 euros por um livro, ou 350 euros por um Dobson, mas compram-se sucessivos telemóveis de mais de 700 euros..., bilhetes de 150 euros..., almoços caros... E, para isso, o dinheiro existe. Mas para livros, equipamento e actividades observacionais, "já não há". Parece não ser uma falta (só) de dinheiro, mas antes de interesse, de vontade, de prioridades e de curiosidade.

Idêntica opinião com a qual concordo inteiramente, se verifica no Ad Astra (http://www.ad-astra.pt/a-ad-astra/ ), do qual, com a devida consideração, transcrevo o seguinte:

"Durante a segunda metade da década de 90, houve um enorme esforço por parte de algumas entidades nomeadamente do Ministério da Ciência e da Tecnologia, no sentido de divulgar a Astronomia, chegando a haver centenas de eventos de Norte a Sul do País, proliferando os grupos e as associações, as quais levavam junto do cidadão comum, a possibilidade de poder conhecer melhor por exemplo: os instrumentos de observação, aprender mais acerca do nosso Sistema Solar, ou ainda discutir acerca das teorias da formação do Universo entre outros.

Nessa época áurea da Astronomia de Amadores, era comum juntarem-se centenas de pessoas, para assistir a encontros, palestras e sessões de observação. Muitos dos actuais Astrónomos Amadores, viram o seu interesse despertado, durante estes eventos. Alguns realizaram e ainda estão a realizar excelentes trabalhos nas várias áreas da Astronomia."

"(...) Neste período houve igualmente alguns acontecimentos aos quais a comunicação social, sempre tão parca na divulgação científica, deu algum relevo, nem sempre da melhor forma é certo, mas chamando a atenção para o que ia acontecendo no nosso céu, como por exemplo a passagem de cometas brilhantes, eclipses solares e lunares ou ainda as descobertas de novos sistemas solares até há bem pouco tempo desconhecidos.

Vários anos decorridos, infelizmente o fulgor dos grupos e das associações decaiu imenso, criando um “vazio” na divulgação e consequentemente um decréscimo nas pessoas interessadas nesta área da ciência."

Seria interessante ler o que têm a dizer  sobre isto os frequentadores do nosso "Astronomia Q&A".

Haverá provavelmente razões, ocultas ou não, que nos escapam. Haverá diferentes perspectivas, com múltiplas razões que seria interessante conhecer. Está aberta a troca de ideias.

Guilherme de Almeida

https://www.wook.pt/autor/guilherme-de-almeida/5235

http://www.platanoeditora.pt/?q=N/SEARCHBOOKS/861&sType=AUTHORID&maid=292

http://www.platanoeditora.pt/?q=N/AUTHORSHOW/861&maid=292

  
comentou Nov 12, 2014 por Ricardo Teixeira AstroCurioso (1,500 pontos)
Acho que o Hubble pode ter contribuído um bocadinho para isso: as imagens fantásticas que chegam até nós proveniente do telescópio espacial Hubble pode desiludir os iniciantes em observações astronómicas. Observar planetas, cometas e eclipses não é tão emocionante, na minha opinião, como observar nebulosas, diferentes formatos de galáxias, etc.. Parece que os telescópios amadores tornaram-se obsoletos porque não permite observar outras galáxias.
comentou Nov 12, 2014 por Guilherme de Almeida Super-Nova (24,440 pontos)
editado Out 22, 2016 por Guilherme de Almeida

Boa noite,

Embora o aspecto que indica possa ser relevante (e é realmente, para algumas pessoas), os telescópios de amador permitem observar outras galáxias.

Por exemplo, pense na lista de Messier. O Charles Messier (1730-1817) descobriu uma grande parte dos  os 110 objectos dessa lista (e observou todos) com um telescópio que, pelos critérios de hoje não era grande (tinha 108 mm de abertura) e não era opticamente muito bom. Mas, para  observar nebulosas e galáxias, é preciso que a poluição luminosa seja muito baixa, coisa cada vez mais difícil de obter perto de casa. Hoje, por menos de 450 euros, um amador tem facilmente um dobsoniano de 200 mm de abertura, que capta mais de 3,4 vezes a luz que captava o instrumento utilizado por Messier. E um dobsoniano de 150 mm por menos de 340 euros.

Sobre Charles Messier:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Messier

http://www.astro-rennes.com/initiation/catalogue_messier.php

http://www.space.com/16686-charles-messier-biography.html

----------------------

Note-se que mesmo um telescópio de D=150 mm permite observar centenas de galáxias. Mesmo se formos algo irregulares e menos empenhados, podemos ver algumas dezenas de galáxias em pouco tempo. Porém, concordemos, não as veremos com o impacto visual das imagens do Hubble. Mas por outro lado, observar por nós mesmos, ao vivo pode ter também a sua faceta interessante. Seria interessante ler a opinião de mais pessoas sobre este interessante problema de abandono. Ou de mudança de prioridades.
Há quem prefira comprar um objecto que "dá" estatuto social, que pode ser exibido em lugares públicos, e que (quase todas as pessoas interpretam como sinal de prosperidade do seu dono: um telemóvel topo de gama. Mesmo que lhe custe mais de 700 euros. Um telescópio de entrada (mesmo que seja de 150 mm ou 200 mm), pode custar menos do que um top smartphone, ou o último grito dos hi-phones, não mete tanta vista e cada vez menos pessoas o parecem apreciar.

Guilherme de Almeida

comentou Out 21, 2016 por LUIS B. AstroNovato (600 pontos)

Esta é uma pergunta feita aqui há dois anos e que continua hoje tão oportuna quanto preocupante. Acredito que não haja sequer um motivo que se destaque dos restantes ou que por si só justifique este gradual desaparecimento de entusiasmo pelas 'observações astronómicas' (e digo pelas 'observações', pois não tenho a certeza que se trate de desinteresse pela Astronomia).

Concordo em absoluto com o autor da pergunta, quando diz não acreditar que o problema esteja ligado à falta de dinheiro, não só pelos exemplos que refere mas também porque a crise surgiu e se acentuou dramaticamente a partir de 2008; o desinteresse terá surgido muito antes disso.

Um dos motivos que poderá estar relacionado com este desinteresse pela 'actividade prática' da astronomia, terá a ver com a noção que ao longo dos últimos anos tem sido transmitida pelos media, acerca dos meios de investigação.

Estaremos perante um efeito perverso da divulgação?

Lemos (e vemos na Web e nas tv's) notícias, fotografias e vídeos sobre galáxias distantes, encontros com cometas, naves para lá do Sistema Solar, telescópios espaciais, telescópios terrestres com sofisticadas ópticas adaptativas, buracos negros, ondas gravitacionais, robots em Marte, sei lá! De que serve então construir ou possuir um pequeno telescópio? O que posso eu ver que não tenha já visto melhor? Que utilidade ou contribuição para o conhecimento (pessoal e da comunidade) poderá ter o meu interesse e dedicação, se vou competir com máquinas que custam milhões?

Como comecei por dizer, deverão existir diversos motivos para o pouco entusiasmo pela 'observação' astronómica. Este poderá ser um deles.

2 Respostas

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respondida Dez 15, 2014 por Maciel (200 pontos)
Esta pode ser a situação em Portugal. No Brasil, a partir de 2000, e de forma consistente, ano após ano, o mercado de equipamentos de astronomia vem se expandindo, e é um ótimo indicador do interesse geral das pessoas.

O número de listas de e-mail e grupos em redes sociais que tratam de astronomia também só cresce.

Agora, quando se fala de observação sistemática do céu, coisa de observar pra AAVSO, ICQ, IOTA e etc, isso é pra entusiasta mesmo. Não vejo aumentar, mas também não vejo cair.
comentou Dez 15, 2014 por Guilherme de Almeida Super-Nova (24,440 pontos)
editado Dez 15, 2014 por Guilherme de Almeida

Caro Maciel,

De facto,  a minha constatação refere-se (implicitamente) a Portugal.

Não conheço a situação actual no Brasil, nem a respectiva evolução.

Porém, em algumas partes dos Estados Unidos da América, na França e em parte da Espanha, o panorama é de retrocesso. Em outros locais há disparidade de opiniões.

Veja aqui esta série de opiniões (mais de 800 pareceres):

http://www.cloudynights.com/topic/447418-are-amateurs-leaving-astronomy-hobby/

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respondida Nov 13, 2014 por João Calhau Super-Nova (13,660 pontos)
editado Out 22, 2016 por Guilherme de Almeida
Não penso que exista uma apatia ou falta de interesse maior agora do que há dez anos atrás.

Na verdade, penso que a "crise" tem mesmo um grande impacto nisto: não só há menos dinheiro para as pessoas se deslocarem aos locais dos eventos, há menos dinheiro para fazer a publicidade destes encontros/sessões que, assim, acabam por chegar ao conhecimento de menos pessoas.

Relacionado com isto penso que está também algo que tenho vindo a constatar nos últimos anos: a tendência para estagnar os encontros de divulgação de Astronomia. Não na temática/interesse dos participantes mas no "outreach". A Astrofesta é um bom exemplo disso: creio que nos últimos 6/7 anos, a Astrofesta já foi algumas 3 vezes a Constância (duas pelo menos, em 2012 e agora este ano). No passado, era mais "itinerante", viajava pelo país e chegava a mais pessoas - não sei se me estou a fazer compreender. Mais do que isso, há anos que eu não vejo publicidade a eventos de Astronomia no Verão. Estes eventos continuam a existir mas deixaram de chegar às pessoas. No Alentejo, na minha terra, a Astronomia no Verão era quase uma altura de festa. Iam pessoas de dezenas de quilómetros em redor para espreitar por aquele tubo misterioso e ouvir as explicações do divulgador. Mas passado dois ou três anos deixaram de acontecer - e eu sei que não foi por falta de interesse da população.

 
O que quero dizer com isto é: As pessoas continuam interessadas. Não sabem, ou não têm, é como satisfazer esse interesse.
comentou Nov 13, 2014 por Guilherme de Almeida Super-Nova (24,440 pontos)
editado Jan 15, 2016 por Guilherme de Almeida

Olá, João Calhau,

Agradeço a resposta interessante, que mostra outra visão do problema.

Porém, quanto a publicidade dos eventos, podemos adiantar que:

a) a Astronomia no Verão é publicitada na televisão e está sempre disponível em  http://www.cienciaviva.pt/centroscv/rede/. Aí, os interessados têm sempre o calendário das observações, os locais, horários e quem organiza (sempre que se aproxima o Verão, é claro);

b) no caso das Astrofestas, há imensa divulgação nas listas da apaanews, no site do CCv de Constância (http://constancia.cienciaviva.pt/home/) e  outras;

c) quando faço palestras especiais no Planetário Gulbenkian (Lisboa), envio mais de 600 convites por e-mail, e há ainda a lista da newsletter do Panetário Gulbenkian (inscrição em http://planetario.marinha.pt/PT/Pages/Planetario.aspx ), com largas centenas de aderentes; vão lá tipicamente 150-180 pessoas (no meu caso pessoal), mas numa sala de 330 lugares é desperdício. E estas palestras não são sempre as mesmas, nem são iguais às que o Planetário normalmente faz. Algumas vão até ao encontro das necessidades de muitos novatos ("Como conhecer o céu", por exemplo...)

Neste primeiro ponto, o que quero dizer é que ninguém se pode queixar de falta de publicidade, de falta de convites ou de ausência de avisos. O clássico "não sabia disso" não é real, nestes casos

Quanto a deslocações, ir a uma palestra de astronomia ou a um evento não custa mais do que ir da localidade "A" onde se vive à localidade "B" onde vai haver um jogo de futebol. E as pessoas vão! A deslocação custa dinheiro na mesma e, contudo, no caso do futebol vão lá mais de 15000 pessoas de cada vez. Mistérios...

O ponto que me parece crucial é que, apesar de haver crise, as pessoas cortam na astronomia amadora, mas não cortam em outras coisas (não essenciais) de custo e deslocações iguais ou superiores E o telemóvel e Iphone de última geração, esse, quase sempre topo de gama, tem de estar sempre no bolso.... É esse critério de rejeição que me preocupa. Por exemplo, a APAA faz uma palestra mensal em Lisboa, destinada a qualquer pessoa, sócia ou não, e é sempre anunciada em  http://apaaweb.com/v2013/index.php/actividades/147-a-assoc e é raro irem lá mais de 8 pessoas.

É a tal história: uma refeição num restaurante razoável, para duas pessoas, = 24 euros e dará um gozo de hora e meia, no máximo, e paga-se sem pestanejar nem hesitar. Um livro que auxilia, informa e apoia durante mais de um ano, pelos mesmos 24 euros, já não se quer pagar, diz-se "é caro...". Um bilhete de futebol, para um espectáculo de hora e meia, paga-se sem hesitar, mas o mesmo dinheiro num livro, na ida a uma palestra ou a um encontro em local próximo, já não se dá. E as palestras, contrariamente ao que sucede em outros países, em Portugal são grátis! Penso até que há tendência para as pessoas desvalorizarem ou desprezarem o que é grátis.

Quando ponho o dedo na ferida é neste critério específico que o coloco. E sim, havia mais de 120 pessoas num encontro típico e chegaram a ser 1400 (mil e quatrocentos, leram bem) na Astrofesta em Aljustrel. Mas agora  raramente são mais de 80 em astrofestas e rarissimamente mais de 30 em encontros ou palestras, mesmo em auditórios generosos.

Guilherme de Almeida

http://www.wook.pt/product/facets?palavras=guilherme+de+almeida

comentou Nov 17, 2014 por Guilherme de Almeida Super-Nova (24,440 pontos)
editado Jan 15, 2016 por Guilherme de Almeida

Há um outro aspecto que me esqueci de referir.

Na verdade em boas livrarias (como FNAC, Escolar Editora, Bertrand, Bulhosa, etc.), até por volta de 1998-2003,  era fácil encontrar, numa mesma livraria, três ou mais prateleiras cheias de livros, nacionais e estrangeiros, sobre telescópios, observações astronómicas, astronomia e astrofísica, com diversos níveis de profundidade. Facilmente se encontravam aí mais de 60 livros diferentes sobre esta matéria e até tinham uma secção chamada "Astronomia", com prateleiras a isso dedicadas.

Agora, com sorte encontramos 2 ou 3 livros sobre esta temática, e em muitas destas boas livrarias já nem sequer há sequer uma secção rotulada "Astronomia" ...

Sabendo-se que as livrarias são rápidas a ajustar-se ao perfil da procura, parece óbvio que daqui há uma lição a aprender.

A Internet não justifica tudo, e a sua existência, de inegável utilidade, não substitui a procura de livros materiais e palpáveis.... Não parece aceitável concluir que as pessoas não procuram por terem a mesma informação online, quanto mais não seja porque há na internet informação sobre todos os assuntos e os livros de outras áreas não caíram tanto como os de astronomia, nas suas diversas vertentes.

As pessoas refugiam-se cada vez mais no romance-ficção, como se assim fugissem à dura realidade vivida, e deixam de procurar livros práticos e técnicos, a não ser por interesse estritamente profissional

Guilherme de Almeida

http://www.wook.pt/product/facets?palavras=guilherme+de+almeida

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